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[Conto] Adorável Boneca

 Segurando firmemente o bisturi, o encaixou tomando cuidado para não machucar o globo ocular, com jeito fez o olho esquerdo sair e calmamente se livrou do nervo óptico.

Sempre ficava mais eufórico nessa parte, então procurava seguir o passo a passo, lentamente. Logo mergulhou o olho num pequeno tubo, cheio de uma solução que aprendera a fazer com seu pai, haviam muitos anos.

 Deixou o tubo fechado em cima da pia junto com o bisturi, e seus dedos correram até a agulha e a linha, separando um fio grande o bastante.

O suor escorrendo por seu rosto lhe mostrava como era estar vivo. A sua respiração, profunda, mudou quando uma música antiga veio à mente. Sem se conter, começou a cantarolar enquanto, debruçado sobre o corpo feminino, costurava a pálpebra fechada.

 Finalizou o último ponto cortando o que sobrara da linha, as mãos habilidosas ajeitando com zelo qualquer imperfeição do vestido cheio de babados e grandes laços.

Ela estava quase perfeita e, por um momento, parou imaginando o que faltava.

Pegou uma faca e, como se a testasse, cortou de leve o pulso fino. Um gemido de dor o despertou de seu transe, fazendo-o olhar para o rosto banhado em sangue e lágrimas. A boca costurada de uma bochecha à outra, porém, impedia que ela atrapalhasse seu momento.

-Rosa, minha querida, estamos quase terminando. – Ele acariciou os fios macios dela sutilmente. – Logo você vai se juntar à minha coleção. Não precisa chorar, prometo que no seu enterro levarei rosas.

Ajeitando a faca no pulso da mulher, passou a empurrá-la verticalmente até atingir a mesa de mármore. Rapidamente outra faca estava em suas mãos e, com passos calculados, deu a volta repetindo o mesmo ritual no outro pulso, primeiro cortando e depois afundando o instrumento, até a ponta aparecer do outro lado.

Se afastou sorrindo ao observar por completo sua obra prima. Satisfeito consigo mesmo, começou a soltar o corpo da garota, ainda não totalmente morta.

Não fazia ideia de quem ela era mas, quando a viu, soube que tinha de ser sua, como um brinquedo novo que chama atenção na vitrine.

A pegou no colo, como se fosse um recém-nascido, e a sentou na poltrona da sala, os braços pousados nos descansos, o tronco o mais reto o possível e o vestido cuidadosamente feito para a ocasião meticulosamente arrumado.

Sentia-se feliz como na primeira vez, e devia tudo isso a Rosa sua segunda e adorável boneca.

Quando terminou seu trabalho, saiu da casa deixada pelos verdadeiros donos um dia antes e entrou em seu carro já com as luvas, a roupa de antes e as outras coisas que usara guardadas separadamente numa bolsa discreta.

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